Filosofia para usar

Mais prática para quem não se contenta só com a teoria

27.8.06

A liberdade possível


Você conseguiria vencer um inimigo invencível? Poderia voar num limite improvável ou tocar um chão inacessível? Você é forte o bastante para ser, fazer ou conquistar algo que não está ao seu alcance?
Existe uma situação contraditória na vida humana que, acredito, se apresenta a todas as pessoas com intensidades distintas, mas com clareza incontestável: a necessidade de ser livre e a dificuldade de sê-lo de maneira, se não absoluta, ao menos satisfatória.
Nas primeiras linhas desse post que tratará da liberdade, usei algumas frases da música Sonho Impossível, versão de Chico Buarque e Ruy Guerra para The impossible dream, de J.Darion e M.Leigh. A letra expressa desejos contrapostos a circunstâncias desfavoráveis. Sonho Impossível é, no entanto, uma música esperançosa... apesar de tudo:

“E assim, seja lá como for
Vai ter fim, a infinita aflição
E o mundo vai ver uma flor
Brotar do impossível chão”

Esse “apesar de tudo” é adequado quando se fala da liberdade. A noção contemporânea sobre o que significa ser livre exclui todo e qualquer obstáculo da vida das pessoas. Ou seja: é livre quem não tem qualquer objeção ou coação às suas vontades, pensamentos e ações.
Essa noção de liberdade, porém, parece equivocada por um motivo muito simples: o homem é limitado em sua própria natureza. Basta dizer que todos temos um corpo sujeito a doenças e que, além disso, é mortal. Sendo assim, ainda que nenhum obstáculo exterior obstrua nosso caminho, em algum momento encontraremos um obstáculo interior – seja uma doença, uma dificuldade com cálculos matemáticos, uma fraqueza moral – que nos fará menos livres para realizar o que desejamos ou precisamos.
Mas se, ao contrário do que nos sugere a noção contemporânea do que é ser livre, consideramos a natureza humana com suas qualidades e deficiências, podemos dizer que ser livre significa prescindir de qualquer determinação, coação externa ou necessidades naturais existentes para realizar certas ações. Ou seja: a liberdade é possível, sim, apesar de todas as circunstâncias que dificultam sua conquista.
Para prescindir de algo, o homem precisa querer, precisa não se sujeitar. E aí está a chave para a verdadeira liberdade: uma vontade forte, capaz de guiar os próprios atos e pensamentos. Assim resume o grego Aristóteles: “O homem livre é causa e senhor de si mesmo”.

Livre, apesar de preso
Lembro-me agora da auto-biografia Cinco pães e dois peixes, escrita por François-Xavier Nguyen Van Thuân, sacerdote católico, vietnamita, que teve a prisão decretada em meados da década de 1970 pelo governo comunista do Vietnã. Van Thuân, que foi detido por ser católico, passou 14 anos na prisão, oito dos quais numa solitária úmida, sem janelas, insalubre.
No início do seu “martírio sem morte”, Van Thuân viu-se privado da saúde, tanto física quanto mental. Fechado num cubículo, era obrigado a passar várias horas respirando por um buraco sob a porta a fim de conseguir mais oxigênio; para não ter os músculos atrofiados, andava – como podia – de um lado para o outro na cela. A loucura que brota do silêncio absoluto, da falta de qualquer contato humano, só não o abateu porque, quando conseguia, recitava mentalmente orações e canções litúrgicas que havia decorado.
Passada a fase de perplexidade com o que lhe acontecia, o sacerdote vietnamita começou a entender que, apesar de estar limitado por situações completamente adversas, aquilo que havia de mais importante em si não tinha qualquer grilhão: o amor por Deus que sentia e sua vontade de apresentar esse amor a outras pessoas.
Quando passou para uma cela com outros presos – alguns dos quais católicos – Van Thuân conseguiu o apoio dos seus companheiros de cárcere para celebrar a missa de um modo audacioso: clandestinamente, sob os lençóis que usavam para se cobrir, usando vinho que ele mesmo pedia ao carcereiro alegando ser para fins terapêuticos – o que não deixa de ser verdade: para Van Thuân e os demais presos, a missa era terapia para a alma.
O sacerdote católico, por sua decisão de não deixar que o clima de opressão o endurecesse, esforçou-se para fazer amizade com os carcereiros que o mantinham recluso. Não há dúvidas de que sofreu resistências no começo, mas sua paciência e delicadeza foram tamanhas que, tempos depois, ensinava doutrina cristã e até músicas em latim para os guardas.
“Em outubro de 1975, fiz um sinal a um menino de sete anos, Quang, que regressava da missa às 5 horas, ainda escuro: ‘Diz à tua mãe que me compre blocos velhos de calendários’. Mais tarde, também na escuridão, Quang me traz os calendários, e em todas as noites de outubro e novembro de 1975 escrevi da prisão minha mensagem ao meu povo. Cada manhã o menino vinha recolher as folhas para levá-las à sua casa e fazer que seus irmãos e irmãs copiassem-nas”. A narrativa de Van Thuân mostra como ele conseguiu transpor os limites físicos de sua liberdade para continuar falando aos fiéis da paróquia que coordenava quando ainda estava fisicamente livre. As anotações nos blocos velhos de calendário, lidas por dezenas de pessoas quando o sacerdote ainda estava preso, deram origem ao livro O caminho da esperança, publicado, tempos depois, em pelo menos oito línguas. Van Thuân faleceu em 2002, quando já estava livre... fisicamente livre, porque “interiormente”, nunca esteve preso.
O exemplo do sacerdote católico é um caso extremo, é verdade. Na média dos homens e mulheres que existem, poucos passarão pela experiência do cárcere. Mas é preciso depreender desse episódio particular o que há de geral quando se fala de liberdade: todos têm um desejo profundo de ser livres. Por isso, seja qual for o anteparo que dificulte a caminhada, o homem, com a criatividade que também lhe é natural, procurará e encontrará outras formas – talvez não as ideais, mas as possíveis – de prosseguir para onde quer.

Liberdade não é onipotência
Liberdade não é onipotência. Essa verdade, embora evidente, custa a ser aceita por nós porque contraria desejos, posterga planos, inviabiliza ações e frustra expectativas. Não aceitamos o fato de ter que abrir mão de algumas coisas para tomar posse de outras.
Mas já está claro que, por causa das limitações naturais do ser humano, é impossível ser, ter e fazer tudo ao mesmo tempo, por mais livres que sejamos.
A liberdade absoluta só é possível enquanto pura potência, enquanto é apenas possibilidade. Eu posso fazer qualquer escolha? Sim, sem dúvida. Mas, a partir do momento que escolho um bem, abro mão de outros tantos e limito, assim, minha liberdade ao bem escolhido.
Essa limitação é necessária para que a liberdade seja efetiva. Se quero a liberdade absoluta, terei que renunciar a qualquer tipo de escolha, de realização. Sendo assim, acabarei sem nada. É mais ou menos como a criança que, por receio de “gastar” um brinquedo novo, deixa-o guardado. Ela o manterá intacto, sem dúvida, mas estará se privando do prazer que o brinquedo lhe oferece.

Um problema filosófico
Muitos dos pensadores clássicos consideraram que a vontade humana está inclinada a buscar o bem. Sendo assim, podemos dizer que não somos livres, uma vez que estamos “determinados” ao bem. Mas o filósofo medieval Tomás de Aquino resolveu esse paradoxo e, mais que isso, descortinou uma verdade animadora sobre a liberdade.
Sim, a vontade humana está “sempre inclinada a querer o bem em geral”, diz Tomás de Aquino. Logo, querer o mal puro para si é algo que o homem não pode escolher – mesmo quando comete um ato objetivamente ruim, como o suicídio, o ser humano busca a felicidade, o bem, busca sentir-se melhor; isso, claro, é um quadro patológico, tal como o masoquismo, que busca o prazer na dor.
No entanto, diz o filósofo, o homem, embora determinado a querer sempre o bem em geral, não está determinado a escolher um único bem. E aí vem a verdade animadora sobre a liberdade: as possibilidades de escolha do homem sobre qual bem mais lhe convém são quase infinitas. É como ter um ponto de chegada e inúmeros itinerários para atingi-lo. Basta escolher.
Algumas vezes, é claro, não nos caberá escolher entre um ou outro bem; nos caberá apenas aceitar e querer – sem resignação – o que nos vem dado. Mas, quando a escolha tem lugar no processo que nos conduz a uma ação ou pensamento livres, é importante que essa escolha seja bem feita.

Uma boa escolha possibilita outras
A qualidade de uma escolha é fundamental para a vivência da liberdade. O que é uma boa ou má escolha é tema para outro post, mas uma coisa é importante deixar clara: uma escolha será tanto melhor quanto mais possibilidades de escolha ela proporcionar adiante. Um motorista, por exemplo, que escolha parar diante de um farol vermelho, terá mais chances de seguir percorrendo a avenida sem qualquer colisão e, melhor ainda: poderá chegar ao destino almejado. O motorista que decide ultrapassar o farol vermelho, no entanto, reduz, e muito, suas chances de seguir o caminho que tem à frente, pois a qualquer momento pode sofrer um acidente.
O exemplo é simples e evidente para ser didático. Nas decisões que envolvem relacionamentos e questões morais, porém, as coisas não são tão preto no branco. Mas o fato de que uma boa escolha possibilita outras tantas vale para qualquer circunstância da vida, das prosaicas às mais complexas.

Liberdade mais viva
Creio que não existam receitas prontas sobre como viver melhor a liberdade – e se existem, não as conheço. O fato é que a liberdade, embora entendida como a capacidade da vontade humana de se auto-determinar ao bem, é única para cada pessoa que a vive. E essa riqueza humana é inviolável. As linhas-mestras apontadas pelos filósofos sobre esse assunto, e que nos ajudam a compreender e tornar mais viva a liberdade, são as seguintes:

1) Agir com liberdade é possível mesmo quando as circunstâncias externas e as limitações internas dificultam o processo. Basta usar a criatividade, “furar” os bloqueios e chegar a uma liberdade, se não ideal, ao menos possível.

2) Liberdade não é onipotência. É preciso aceitar que temos limitações capazes de interferir na nossa liberdade.

3) O homem, pela sua própria natureza, está condicionado a buscar sempre o bem geral. Mas a escolha de bens particulares – como a pessoa com a qual vamos nos casar, a faculdade que iremos cursar, os amigos que teremos e os rumos que daremos à nossa vida – não está, de modo algum, condicionada.

4) Os pensamentos são sempre livres, ainda que sejamos proibidos de externá-los.



“Os pensamentos são livres, diz uma canção popular alemã. Compreende-se que tenha sido proibido cantá-la no terceiro Reich. Mas a ordem de “esquecê-la”, própria de um regime totalitário, somente teve o efeito de fazer com que fosse cantada com mais entusiasmo na clandestinidade, ou ao menos por dentro, no coração de cada um, isto é, naquele lugar íntimo onde as ordens não chegam e onde os “outros” não podem entrar”.

Jutta Burggraf, professora e doutora em psicopedagogia, no ensaio "Atreva-se a pensar com liberdade"



Ouça a música Sonho Impossível no site do UOL
Sugestão: a terceira versão é a melhor

http://musica.busca.uol.com.br/radio/index.php?busca=Sonho+imposs%EDvel¶m1=homebusca&check=musica&enviar=OK&sss=axe#

4.6.06

Dor, húmus da alma humana


Este post é para cada um dos meus amigos e amigas, colegas e conhecidos que têm ou tiveram dores a desaguar, das menores às maiores. Represei algumas das que conheço e agora as devolvo transfiguradas – indolores – por uma visão antropológica, no mínimo, esperançosa: a dor é o húmus que fortalece o homem e o faz maior e melhor do que ele imagina ser capaz.
O mérito dessa transfiguração não é meu, mas dos filósofos, antropólogos e pessoas sábias que pensaram sobre o assunto, sofreram e voltaram – provavelmente daquele poço profundo de que tanto se fala – trazendo nas mãos um luzeiro.
O sofrimento é algo próprio do ser humano, cuja psicologia tende a sentir-se atraída por aquilo que é bom – como o prazer e a esperança – e a assustar-se ou incomodar-se com o que é contrário ao seu bem-estar, como uma doença já instalada, uma rejeição ou mesmo a possibilidade futura de perder algo que lhe é caro.
“Quando o sério se torna interminável e parece talvez definitivo, sobrevem o sofrimento e desaparece a alegria: tudo parece, então, destinado a fracassar, e o mal, o pranto, a doença e o cansaço desdobram suas sombrias asas sobre nós. É uma região inevitável. Ignorá-la é manter-se no sonho. O homem, não há engano possível, é constitutivamente limitado, e assim o experimenta de múltiplos modos. A dor, em todos, é algo que já aconteceu, que está por aparecer, mas que sempre sairá ao nosso encontro (pelo menos no limite da própria morte)”, explica o filósofo espanhol Ricardo Yepes Stork no livro Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana (Ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio).
Não pretendo aqui esmiuçar os porquês últimos do sofrimento, mas apenas tentar enxergar o que há de “bom” em situações, via de regra, desagradáveis. Apesar de existirem respostas sólidas para muitos desses porquês últimos, oferecidas tanto pela filosofia quanto pela religião, é provável que a resposta mais convincente será encontrada no interior de cada pessoa que padece ou padeceu algum desgosto.
Com o passar do tempo e com a assimilação da dor, um panorama de compreensão se descortina na vida de quem sofre. As dores padecidas – cicatrizadas ou ainda lancinantes – passam a fazer sentido dentro de histórias pessoais, com nome, sobrenome e um contexto próprio, irrepetível. É como juntar as peças de um quebra-cabeça. Uma dor se encaixa em outra, e em outra, e em outra. Entre elas, encaixam-se cenas da vida aparentemente vulgares que, quando ladeadas pelas cenas ásperas do sofrimento, ganham um sentido mais claro, mais profundo, talvez. A imagem do quebra-cabeças, então, começa a se formar, e aqueles sofrimentos, que isolados pareciam completamente absurdos, unidos em um quebra-cabeça fazem um sentido incrível, enunciam respostas e dão a conhecer o título da história de vida de quem ousou se debruçar sobre as próprias dores e perscrutar-lhes o sentido. Quando encaixada a última peça, gostando ou não da imagem formada, muitos dos que padecem chegarão a dizer: precisei sentir essas dores para entender e aceitar aspectos fundamentais da minha vida e que, nos momentos de gozo, eu era incapaz de abarcar.

Fugir da “fuga”
Uma coisa é certa, e a experiência assim nos mostra: fugir à dor só causa mais dor. A fuga – que pode se dar com o torpor da razão por qualquer química (drogas, álcool ou remédios) ou pela postura de não querer entender o que se passa – nos “incapacita para suportar o padecer, e aumenta com isso o sofrimento”, explica o filósofo alemão Robert Spaemann. Quanto aos remédios, cabe uma ressalva: eles servem ao homem como muletas necessárias, mas provisórias – como no caso de uma depressão, por exemplo. Se as muletas não são usadas (ou abandonadas) no momento oportuno, atravancam o fortalecimento do homem e seu caminhar normal.
O paradoxo da fuga da dor que gera mais dor consiste em que, ao desviarmos dela, a encontramos justamente onde não a esperamos: “na nossa própria fragilidade e insatisfação ante as dificuldades ordinárias da vida, que se tornam insuportáveis em nossa falta de motivos para sofrer, inermes diante da dor” (Stork). A fuga sistemática de qualquer sofrimento nos faz menos aptos mesmo às pequenas batalhas do dia-a-dia – um atraso do ônibus ou uma simples gripe podem ser motivos para grandes dramas. O que dizer, então, dos sofrimentos “existenciais”, relacionados aos fins últimos do homem? É certo que os grandes combates se perdem, muitas vezes, pela falta de treino nas pequenas batalhas.

Dor moral e dor física
“A dor do corpo é pessoal, mas infinitamente menos íntima do que a dor moral. Uma perna quebrada não tem o mesmo nível de sofrimento que uma depressão profunda, já que a primeira afeta de um modo muito mais remediável e parcial (se engessa e se toma um calmante e está resolvido), enquanto que a segunda pode tirar de foco completamente a explicação do sentido da vida. Este sofrimento causa mais dano também por ser menos comunicável: todos vêem o inchaço da perna, mas não é fácil perceber a dor do espírito”, descreve Stork.
No caso das dores morais, por incrível que pareça – e quem já não terá vivido isso? – o homem é capaz de aumentá-las. Nos sofrimentos interiores, a memória, a fantasia e a inteligência intervêm de modo inconfundível: são utilizadas pelo homem para relembrar sofrimentos passados, para imaginar grandes males que podem surgir e para “carregar nas tintas” do sofrimento presente. “Essa é a raiz da hipocondria, da apreensão, das fobias etc.”, alerta Stork.

Aproveitar bem a dor
O que segue nesse post não é uma apologia à dor, ao masoquismo ou algo que o valha. Aproveitar bem a dor não significa fomentá-la, mas sim, em primeiro lugar, deixar de medir forças com aquelas que são inevitáveis. Em segundo lugar, significa ancorar-se na
intensidade dos sofrimentos e usá-la para purificar a alma, fortalecer sua “musculatura” e aprender a dar a cada coisa o valor que tem.

1) Aceitar o sofrimento: “quando padecemos de uma doença, do cativeiro, de um ultraje ou de uma desgraça, não somos livres de sofrê-los ou não, visto que vêm impostos, mas podemos, sim, adotar diante deles uma atitude positiva ou negativa, de aceitação ou rejeição” (Yepes). Ao assumir a dor como uma tarefa de reorganização da própria vida, o homem se empenha em procurar os meios para colocar um fim ou amenizar o que lhe tira a paz; com essa postura ativa, deixa de estar tão submisso aos males que vêm de fora. Seu domínio sobre o sofrimento pode não ser total, dadas as suas limitações, mas certamente não será nulo, e ele não estará inerte sob o jugo que lhe cabe naquela circunstância adversa. “O verdadeiro resultado do sofrimento é um processo de amadurecimento. O amadurecimento se baseia em que o ser humano alcance a liberdade interior, apesar da dependência exterior”, afirmou o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas.

2) Purificar-se com a dor e colocar cada coisa em seu lugar: o sofrimento, quando assumido livremente, nos torna menos dependentes dos nossos caprichos, uma vez que
aprendemos a renunciar àquilo que não podemos ter – justamente o que nos causa dor –, seja a saúde, um bem material necessário, o apoio de alguém, um amor não correspondido. Diante de uma depressão profunda, por exemplo, o ser humano se vê acometido por uma falta de vontade estrutural para as coisas mais simples do dia-a-dia; enfronha-se no desespero, no não-entendimento sobre o que se passa; embebe a alma na revolta. Passado, digamos, o “tempo de prova”, curada a depressão, o peso dos problemas, para quem sofreu com essa doença, passa a ser muito relativo. A falta de dinheiro, uma rusga no trabalho ou na família, uma decepção ou um mal-estar físico duradouro apresentam-se com uma dimensão muito menor do que tinham antes da depressão. A sensação que se tem após uma depressão ou outro sofrimento igualmente "paralizante" é de que o pior já passou. As dores ficam mais amenas, as soluções mais aparentes; até as dores alheias são melhor acolhidas por esta pessoa, pois ela está muito mais “treinada” para perceber de longe quando algo não vai bem numa alma do que alguém que nunca apalpou as próprias limitações. “As pessoas que sofreram estão vacinadas contra a insensatez, e nota-se, em seu semblante sereno e mais dificilmente alterável, uma certa postura interior e capacidade de agüentar que as torna mais donas de si” (Stork).
Após um sofrimento intenso, a alma humana pode aniquilar-se, tornar-se permanentemente amarga e pessimista. Isso, é claro, se consumir tempo e energia lamentando-se pelo que poderia ter sido e não foi. Mas quando a postura é de aceitação ativa – reorganizar a vida a partir de uma circunstância adversa – e de purificação – aprender a renunciar ao que não pode ter e criar situações que supram as privações –, a alma se agiganta. Sem saber ao certo de onde tira as forças que o fazem continuar firme num caminho tortuoso, o homem muitas vezes se surpreende com as capacidades “regenerativas” que possui. Não é raro ver pessoas que carregam na bagagem todas as condições objetivas para “darem errado na vida” – infortúnios, privações, desgraças – e que acabam “dando certo”. Isso porque a energia que gastam para transpor os obstáculos é tão grande, que acabam superando não só os obstáculos como também as limitações interiores – a falta de alguma virtude, por exemplo – que só a adversidade é capaz de revelar.

O grande segredo: dar um sentido para o sofrimento
O sofrimento só é livremente aceito pelo homem e encarado como ocasião de purificação e crescimento quando há um sentido último para isso. E esse sentido último é, ao fim e ao cabo, o sentido que damos à própria vida. “Quando um homem tem um porquê viver, suporta qualquer como”, escreveu Nietzsche. Para ficar mais claro, sugiro um exemplo até de pouca transcendência: uma pessoa cujo objetivo é ser promovida na empresa, estará disposta a certas privações que a farão chegar aonde quer. Trabalhará mais, se cansará mais; talvez dedique menos tempo ao lazer, mas aceitará tudo isso de bom grado, uma vez que essas privações serão etapas transitórias e, acima de tudo, a farão alcançar um objetivo.
O sofrimento, então, muda de figura, e passa a ser encarado como sacrifício, sacro facere, um ato sagrado, essencial. Exemplos de pessoas que assimilam o sofrimento como sacrifício não faltam na vida de ninguém: os pais que se desvelam pelos filhos; um marido que abre mão de gostos pessoais para agradar a esposa; um professor que se esmera nos estudos para enriquecer o pensamento dos alunos. É bem provável que, vez por outra, contemplemos nessas pessoas alguns traços de sofrimento. Mas o que salta mesmo aos olhos em almas “curtidas” pelas intempéries é sua grandeza e serenidade. Contemplando-as, não há como negar: a dor é mesmo o húmus que fortalece o homem e o faz maior e melhor do que ele imagina ser capaz.



“Todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê-los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilatação da vida”.

Trecho do romance Lições de Abismo, de Gustavo Corção

1.6.06

Sou o que sou, e não outra coisa


“Eu quero variar. Eu não quero ser eu”. Ouvi esta frase há sete anos, num ônibus, e sem querer. Enquanto pagava a passagem ao cobrador, uma mocinha jovem, de uns 20 anos talvez, fez esta afirmação a uma amiga. A frase tinha a força e o fastio típicos de um desabafo. Como estava perto da catraca, ouvi tudo nitidamente. O ônibus, embora lotado, estava mergulhado num silêncio abissal, o que permitiu que aquelas palavras reverberassem livremente por alguns segundos até serem diluídas em conversas que começavam a espocar aqui e ali.
Achei aquela afirmação tão pouco usual – para dizer o mínimo – que na hora peguei meu caderno de anotações e registrei: 17/03/1999 “Eu quero variar. Eu não quero ser eu”.
Quatro anos depois, durante uma aula de metafísica, aquela frase, com seu fastio ainda fresco na minha memória, ganhou sentido dentro de um contexto filosófico. A aula era sobre o primeiro princípio acerca do ente, ou seja, o princípio básico que caracteriza, em partes, tudo aquilo que existe: “É impossível ser e não ser ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto”. Isso significa, grosso modo, que a essência de tudo o que existe não é contraditória.
Este princípio, também conhecido como princípio da não-contradição, estava, de alguma forma, na raiz da frase que ouvi no ônibus. Aquela moça, deixando entrever a insatisfação com a própria personalidade, buscava uma solução onde ela não existia: em uma outra personalidade, que não a dela, e que era pura ficção. Talvez até aquele fastio que percebi na sua voz não viesse tanto de sua insatisfação com o que ela era, mas sim da impossibilidade de ser, ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto, outra pessoa.

Uma coisa é uma coisa... outra coisa é outra coisa
A primeira parte da frase que expressa o princípio da não-contradição (“É impossível ser e não ser”) foi proposta pelo filósofo grego Parmênides (540-470 a.C.). Mais de um século depois, Aristóteles (384-322 a.C.) matizou a proposição parmenídea com o “ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto”. Para que o princípio fique mais tangível, darei dois exemplos bem simples: um homem não é um rato; um rato, por sua vez, é um não-homem. Uma cadeira totalmente azul não é amarela; ela até pode vir a ser amarela, caso seja tingida, mas não poderá ser totalmente azul e totalmente amarela ao mesmo tempo. E isso se aplica a tudo o que conhecemos. Numa versão mais “pop-contemporânea” – pedindo aqui uma grande licença poética – diríamos que “uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa”.
Tudo isso parece muito óbvio, é verdade. Mas não é tão óbvio assim quando trasladamos o princípio da não-contradição para nossa vida pessoal e passamos a entendê-lo como coerência.

Discurso e prática
No limite das considerações que farei nesse post, podemos entender a coerência, desde um ponto de vista comportamental e moral, como a compatibilidade entre discurso e prática, entre idéias e ações. Uma pessoa coerente, portanto, é aquela que tem convicções e age movida por elas. Não cabe aqui – por uma questão de foco e espaço – discutir a qualidade das convicções, embora essa discussão seja necessária para validar ou não as atitudes de uma pessoa (Hitler, por exemplo, acreditava na primazia da raça ariana; foi coerente com suas crenças – embora estas fossem objetivamente ruins – a ponto de cometer atrocidades em nome delas).
Para não diluirmos o foco – que é a coerência –, admitamos, então, que todas as convicções que citarmos aqui de modo hipotético são objetivamente boas.
Segundo o princípio da não-contradição dos entes, é possível dizer, de modo positivo, que a coerência é um atributo ontológico do homem, ou seja, faz parte da sua natureza. Esta, por sua vez, requer a coerência para estar completa.
Não é difícil perceber quão verdadeira é esta afirmação se destrinchamos um pouco algumas experiências do dia-a-dia. Uma pessoa, por exemplo, que nos afirme comungar de determinada convicção e, em seguida, nos mostre o contrário com seus atos, perderá, senão toda, pelo menos grande parte de sua credibilidade. Isso sem falar na sensação de repugnância, estranheza ou espanto que sua incoerência despertará em quem a contemplar. É como observar uma ferida no corpo: temos a sensação de que a ferida “não deveria” estar ali, pois é algo estranho, exterior, incompatível com o corpo humano que, intuímos, só é o que deve ser quando goza de saúde. A incoerência é para a alma humana o que a ferida é para o corpo.
Já a pessoa que expressa convicções e ações compatíveis entre si nos conduz à crença em suas palavras e é capaz de despertar admiração e uma certa tranqüilidade em quem nela busca apoio. E vou ainda mais longe. Recentemente escrevi uma reportagem sobre a importância dos bons líderes nas empresas. Conversando com o professor de uma faculdade paulista, descobri que um líder coerente é capaz de reter talentos nas companhias. Isso porque seu exemplo motiva os colaboradores a serem fiéis à empresa e os faz sentir orgulho de se submeterem a uma pessoa com esse atributo.
Em última análise, a pessoa coerente torna-se atraente por ser veraz. Em um artigo sobre a veracidade, o filósofo espanhol Julián Marías chega a ser poético ao falar das pessoas que detêm essa virtude. “É particularmente preciosa a existência de ´espíritos verazes`, cuja atitude consiste em uma irrefreável tendência à verdade. Há pessoas que necessitam da verdade para respirar, que se afogam sem ela, que a buscam incansavelmente (...). Podem ser pessoas muito modestas; creio que em sua maioria o sejam, entre outras razões, porque sua veracidade lhes impede de vangloriar-se. No melhor dos casos, são verazes espontaneamente, quase sem dar-se conta. Ante a presença da verdade se iluminam, às vezes revivem, se sentem em um ambiente respirável. Quando encontramos essas pessoas, recobramos a esperança no ser humano, sentimos confiança”.

Mas também somos incoerentes
Se o princípio da não-contradição perpassa a essência de tudo aquilo que existe, como conseguimos – e não poucas vezes – ser contraditórios, incoerentes nas palavras e ações? Não há uma resposta simples para essa pergunta, pois são muitas as variáveis que influenciam nosso pensamento e conduta. Algumas vezes será a pressão do ambiente – ficar bem diante das pessoas, evitar um mal-estar moral, fugir a um compromisso – que nos levará a não agir de modo coerente. Outras vezes será a fraqueza ou a má qualidade das nossas convicções, incapazes de nos mover a uma atitude firme, ou mesmo as debilidades do nosso caráter – passíveis de serem curadas com o exercício das virtudes. Em outro momento, a ignorância poderá nos pregar uma peça: achamos que estamos sendo coerentes com alguma convicção mas, por não conhecermos a fundo a convicção ou as atitudes correspondentes, simplesmente erramos, trocamos os pés pelas mãos.
Quaisquer que sejam os motivos que explicam nossas incoerências, por trás de todos eles sempre estará a liberdade, atributo do qual apenas nós, seres humanos e racionais, podemos desfrutar. Em maior ou menor grau, sempre somos livres para agir ou não agir em conformidade com aquilo que pensamos. Isso significa que somos responsáveis por aquilo em que cremos e fazemos – desde que não haja, claro, uma coerção exterior, uma ameaça que independa da nossa vontade e que nos obrigue a agir como não queremos.
O fato de vivermos de modo incoerente tantas vezes não prova, de modo algum, que somos incapazes de atuar segundo o princípio da não-contradição que nos é próprio ou, ainda – como querem alguns mais fatalistas –, que somos hipócritas incorrigíveis. A incoerência, mesmo a mais pertinaz, prova apenas que a coerência que nos é natural pode ser corrompida se não for cultivada.
Como acredito na capacidade que o homem tem de viver aquilo que é bom e próprio da sua natureza – acredito mesmo que aquela moça do ônibus tinha capacidade de "encontrar-se em si mesma", e não numa personalidade fictícia – termino esse post com o otimismo poético de Julián Marías:
“Quando alguém, em um meio público, numa escola, na mais simples conversa privada, diz a verdade, (...) sentimos que nem tudo está perdido, que a ofensiva contra a verdade, apesar dos seus imponentes recursos, não prosperará. E por quê? Porque a mentira é incoerente, se contradiz, se destrói a si mesma; porque, em suma, é irrespirável e se afoga em si mesma. O ar respirável da verdade manterá vivos os espíritos verazes”.

24.5.06

Para grandes tarefas, almas magnas


O trabalho de repórter me dá uma oportunidade que considero excepcional: conhecer pessoas, muitas pessoas, com as mais distintas personalidades, idéias e histórias. Basta que eu me sente diante delas, ligue o gravador e dispare a primeira pergunta. O que se segue depois disso não é bem um diálogo – já que nas entrevistas o repórter ouve muito e fala pouco –, e sim um “desaguar” de histórias que vou represando para, em seguida, garimpar os fatos mais relevantes que existem nelas.
Numa dessas entrevistas fiquei diante de dois homens de negócios, e ambos me proporcionaram um garimpo interessante. Um deles me disse que durante toda sua carreira profissional, fosse trabalhando em cargos subalternos ou como diretor de empresa, procurava sempre fazer o melhor e ir além daquilo que seu ofício lhe exigia. Já o outro entrevistado, que durante a juventude passou por dificuldades de toda ordem, afirmou que o fato de ter pautado sua conduta no exemplo de pessoas virtuosas o ajudou a não nivelar seus objetivos por baixo, mesmo quando as circunstâncias a isso o impeliam.
Os assuntos, a princípio, parecem não sugerir uma abordagem filosófica, mas ela existe. Na base das duas condutas descritas, ainda que de forma implícita, está a idéia de que a vida humana é uma tarefa que precisa ser cumprida e, ao fazê-lo, o homem pode alcançar a felicidade.
“A vida tem sentido quando temos uma tarefa a cumprir nela. Isso é o que introduz estabilidade, fantasia e, portanto, uma certa felicidade a cada dia que começa”, explica o filósofo Ricardo Yepes Stork, que completa o pensamento dizendo que o sentido da vida não é a felicidade em si, mas condição para ela.

Tarefas e tarefas
Não é qualquer tarefa, entretanto, que é capaz de descortinar o sentido da vida. Existem, sim, tarefas de maior ou menor repercussão, complexidade, longevidade e importância social, mas independentemente do grau que atinjam nesses quesitos, só serão capazes de conduzir o homem à felicidade as tarefas que possuem beneficiários, pessoas a quem possam ser entregues. “Se não existe um beneficiário, alguém a quem dar, a tarefa não pode ser solidária e, no final, acaba aborrecida e sem sentido. A plenitude da tarefa é que seu fruto repercuta em outros, que meu esforço se perpetue em forma de dom e benefício para os demais”, assegura Stork.
A razão que explica essa peculiaridade das tarefas humanas é que o homem, como pessoa é, essencialmente, um ser dialógico, ou seja, capaz de dialogar com seu interlocutor, de relacionar-se, de entregar-se. E ele necessita disso. A vida em sociedade é a prova mais cabal dessa realidade. Portanto, fechar-se em si e não ter outras miras que não o próprio interesse é, antropologicamente falando, uma afronta à própria natureza humana.

Almas grandes, tarefas grandes
Uma das características mais atraentes em uma pessoa é a magnanimidade – a alma grande, acolhedora, generosa e correta e até – para usar um termo empresarial moderno – empreendedora. Melhor até do que citar os atributos de alguém magnânimo é apresentar a virtude personificada: Cristo, o judeu mais famoso de todos os tempos era, sim, magnânimo, e os registros históricos que descrevem sua conduta não deixam dúvidas sobre isso. Ele sentava-se à mesa com prostitutas, ricos, pobres, doentes, poderosos, políticos, soldados e toda classe de gente que não distinguia entre melhores ou piores; era severo com o erro, mas não com o autor dele; à pessoa justa e honesta fazia questão de louvar em público; às antigas leis judaicas, que muitas vezes pregavam o castigo e a vingança como pena, procurou refutá-las e substituí-las pela lei do perdão incondicional; trabalhou pelo bem comum e instruiu aos que o seguiam a trabalharem com o mesmo ideal; e aqui poderíamos citar mais um sem fim de ações que evidenciam a amplitude da sua alma.
E é de pessoas assim, magnânimas, que costumam brotar as tarefas e projetos mais promissores. Promissores segundo o bem alheio que promovem e, em conseqüência disso, segundo o nível de felicidade que são capazes de proporcionar a quem empreende a tarefa.
“Um bom projeto vital e uma vida bem enfocada são aqueles articulados a partir de convicções que conformam a conduta em longo prazo, com vistas ao fim que se pretende, e que orientam a duração da vida, dando-lhe sentido. As convicções contêm as verdades inspiradoras de meu projeto vital” (Stork). É correto dizer, portanto, que a pessoa magnânima, entre outros atributos, tem convicções e as utiliza para guiar suas ações. Se a afirmação contrária fosse possível, não existiria real magnanimidade, mas apenas um simulacro dessa virtude.

Mediocridade, anemia das convicções
"De fato, não existe nada mais deplorável do que, por exemplo, ser rico, de boa família, de boa aparência, de instrução regular, não tolo, até bom, e ao mesmo tempo não ter nenhum talento, nenhuma peculiaridade, inclusive nenhuma esquisitice, nenhuma idéia própria, ser terminantemente "como todo mundo". Tem riqueza, mas não do tipo Rothschild; a família é honesta, mas nunca se distinguiu por nada; aparência boa, mas muito pouco expressiva; boa instrução, mas não sabe em que empregá-la; tem inteligência, mas sem idéias próprias; tem coração, mas sem magnanimidade etc. etc. em todos os sentidos".
Extraí este parágrafo do romance O Idiota, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, por considerar que, em poucas linhas, ele conseguiu destrinchar os efeitos da mediocridade, que é, da magnanimidade, a antípoda.
Creio que nem sejam necessárias muitas considerações sobre a incapacidade de a alma medíocre – enquanto permanece nesse estado de anemia das convicções – empreender tarefas de peso. Mas, sim, é necessário considerar que esse estado de apatia vital é reversível, desde que se questione e descubra o porquê de sua existência e se trabalhe para mudá-lo. “Cada pessoa faz sua própria vida de um modo biográfico, e por isso tem tanta importância a pretensão vital de cada um, aquilo que cada um pede da vida e procura alcançar por todos os meios. O problema é que muitas vezes não se consegue isso porque (...) aspiramos a menos do que nos é devido (...)”, indica Stork.

Tarefas grandes dos dias pequenos
Quando falei de almas magnânimas, seus atributos e suas tarefas grandiosas, tenho certeza que a memória de alguns leitores recuperou nomes de pessoas que incorporam ou incorporaram essa virtude: Gandhi, Madre Teresa de Calcutá e outros tantos que a História já se encarregou de destacar como modelos.
De fato, eles o são. Mas não só eles, e não só empreendimentos como os deles podem ser considerados promissores no sentido mais profundo que estamos dando a esta palavra até agora. Não sei até que ponto os meus entrevistados tinham consciência disso quando decidiram atuar com atuaram – trabalhar bem, ir além do que foi estipulado nas tarefas e inspirar-se em modelos de virtudes, como descrevi no início desse post. Mas o fato é que suas ações, por simples que tenham sido, denotam, senão a magnanimidade – não os conheci a fundo para afirmar isso – pelo menos uma disposição para ela.
Tarefas grandes têm lugar nos dias pequenos, mesmo naqueles mais ordinários, que não achariam espaço nem na última página do último livro de História. Apenas o fato de encarar as atividades do dia-a-dia – trabalhar, estudar, cuidar dos filhos, estar com os amigos – como circunstâncias próprias para se prestar um serviço aos demais já confere às tarefas o caráter solidário e cheio de sentido ao qual o filósofo Ricardo Stork se refere. Quanto mais embebida em serviço e “alteridade” estiver uma tarefa, tanto maior a felicidade que poderá render e tanto mais magna a alma de quem a empreende.


* A imagem colocada nesse post é um detalhe do afresco "Alegoria do bom governo", de Ambrogio Lorenzetti (séc. XIV). A figura à esquerda é a representação da virtude da magnanimidade; no centro, a temperança; à direita está a virtude da justiça. O artista mostra que as três virtudes, além de outras que não aparecem nesse detalhe, são necessárias para o bom desempenho do governo.

22.5.06

Mais beleza nesta rotina


Se você nunca ouviu um tango do argentino Astor Piazzolla, convido-o (a) agora a fazê-lo. Se me permite, sugiro até uma peça, Adiós Nonino, que Piazzolla fez para o avô falecido e que é uma das músicas mais bonitas que já tive o prazer de ouvir. É esse tango que ouço agora e que me inspira – juntamente com idéias que há alguns dias venho maturando – a escrever este post sobre a necessidade de apreciar a beleza que existe nas pessoas, realidades e objetos mais presentes – e talvez por isso mesmo mais esquecidos – na nossa rotina.
A beleza de que falo aqui não é, necessariamente, a beleza física de uma pessoa ou de uma obra de arte, embora também esta beleza faça parte do conceito mais profundo que pretendo abordar.
Tomás de Aquino, filósofo italiano do século XIII e um dos maiores que a História já teve, descreve a beleza pelos seus efeitos. "Belo é aquilo cuja contemplação agrada", escreve ele. Creio que para o enfoque desse post – que não pretende abordar critérios estéticos sobre o que é ou não é belo –, essa definição é bastante clara, embora existam outras mais completas e tão verdadeiras quanto.
Para organizar o pensamento, cito a seguir três níveis de beleza capazes de provocar deleite no homem:

1) Beleza inteligível: é aquela própria da vida espiritual e está vinculada à verdade e bondade moral. A conduta honesta de uma pessoa, por exemplo, costuma causar admiração e agrado em quem a aprecia. O oposto dessa beleza, portanto, é a fealdade própria da mentira.

2) Beleza natural: é a que procede da natureza dos seres e objetos. Por exemplo, uma planta de estrutura delicada, uma pessoa com traços harmônicos, um animal robusto e ágil são capazes provocar deleite. Outros atributos naturais que não os meramente físicos também podem ser apreciados como belos. Exemplos disso são a funcionalidade dos órgãos humanos e a ordem com que alguns insetos se organizam para armazenar alimentos.

3) Beleza artificial: é produto da criação humana, no qual o homem tenta plasmar algo belo, como nas obras de arte. Aqui podemos citar como exemplo também a música, o cinema, as artes plásticas em geral, a literatura e outras manifestações artísticas.

Todos esses níveis de beleza estão presentes nas próprias pessoas, objetos e circunstâncias, pois fazem parte dos seus atributos. Isso significa que, mesmo não havendo ninguém para apreciar a beleza, ela continuará sendo bela e existindo da mesma forma.
Além de variarem entre si – há coisas mais ou menos belas – os graus de beleza também são percebidos de diferentes formas por cada observador. A capacidade que o ser humano tem de contemplar o belo dependerá da bagagem intelectual e emocional que possui para captá-lo e compreendê-lo. Uma pessoa que domina as técnicas da pintura, por exemplo, verá um quadro com muito mais riqueza de detalhes que uma pessoa que não conhece tais técnicas. Esse fato, no entanto, não subtrai nem uma centelha da necessidade que todos têm de contemplar o belo.

E por que é necessário admirar a beleza?
Em um ensaio sobre a experiência estética como fonte de desenvolvimento pessoal, o catedrático da Universidade de Madri Alfonso López Quintás ressalta que o homem é um "ser de encontro", pois se relaciona com todas as realidades que o circundam. Essa capacidade de relacionar-se e interagir com o outro, no entanto, só é possível quando o homem é capaz de adotar uma atitude de "desinteresse" perante as pessoas e realidades que o cercam, quando é capaz de observá-las e querê-las pelo que são em si mesmas, e não pelo que lhe podem render. "Se me deixo levar pelo afã de obter ganhos imediatos, fico preso às realidades vistas como objetos (...). Ao reduzi-las desta forma não posso encontrar-me com elas. Penso que eu estou aqui e as outras realidades encontram-se ali, em frente a mim, como algo distinto, distante, externo e estranho ao meu ser", diz Quintás, deixando clara a inviabilidade de uma interação verdadeira entre o homem e algo ou alguém que é incapaz de apreciar desinteressadamente.
E aqui se desvela o motivo que explica por que a contemplação do belo é necessária. Na base dessa contemplação está justamente o "olhar desinteressado", o mirar para admirar apenas.
Esse exercício de desprendimento dos próprios interesses para admirar o que as pessoas, objetos e circunstâncias têm de bom em si mesmos é capaz de livrar a alma humana do embotamento provocado pela busca constante de contrapartidas – mesmo as legítimas – no âmbito familiar, no trabalho, entre os amigos e colegas. Mais que livrá-la do embotamento, a contemplação desinteressada do que é belo é capaz de dilatar a alma, tornando-a mais propensa a perceber o que é bom e agradável – do ponto de vista moral, intelectual, espiritual e estético –, mais aberta ao outro e mais sensível a detalhes e sutilezas fundamentais nos relacionamentos. Quem não é capaz de alegrar-se com a virtude de uma pessoa, é menos capaz ainda de ajudá-la a superar defeitos ou dificuldades que porventura tenha, já que essa tarefa exige maior esforço pessoal e disposição para servir. O oposto desse exemplo também é verdadeiro.

Admirar é algo bem prático
Apreciar o que é belo não significa sair por aí com ares de contemplação, como se o mundo lá fora tivesse sido tragado pelo nosso deleite. Admirar é algo bem prático e realista, seja quando admiramos a generosidade de uma pessoa, a funcionalidade de um equipamento tecnológico ou a criatividade de um roteirista e seu filme bem feito. Sem dúvida não é o caso de abrir aqui um tópico com o título "Contemplação eficaz em 10 lições" ou algo que o valha – esse tipo de "receita" não existe. Mas é possível dizer que a razão, enquanto contempla algo, enquanto admira, busca compreender o porquê do seu deleite e torná-lo vivo na memória.
Assim, numa "próxima contemplação", poderá recuperar a compreensão desse porquê e potencializar ainda mais a percepção da beleza que tem diante de si. Se percebo, por exemplo, que a mistura dos violinos com o bandoneón de Piazzolla é o que mais me agrada, não há dúvidas de que ouvirei com mais freqüência e atenção as músicas com essas características.
Por isso, quanto maior for o conhecimento sobre a pessoa, circunstância ou objeto admirados, mais intenso o deleite e mais fácil chegar a ele.

A contemplação do belo é produtiva
Quem acha que admirar o belo é perda de tempo ou coisa para pessoas com sensibilidade de poeta, exponho agora um caso inconteste de que essas afirmações estão equivocadas. Os personagens do caso são dois prêmios Nobel de Fisiologia e Medicina de 1962: James Watson e Francis Crick, cientistas que desvendaram, em 1953, a estrutura do DNA. À parte a competência profissional de ambos e sua insistência nas pesquisas, é preciso dizer que a sensibilidade que tiveram para seguir as pistas dadas pela beleza de um organismo vivo também foi responsável pela descoberta. Watson, ao avaliar a congruente estrutura do DNA, afirma que ela é "incrivelmente bela para não ser verdadeira". Numa carta enviada a um amigo cientista, Watson o coloca a par de suas descobertas e, mais uma vez, recorre à beleza para ressaltar a importância do que tinha em mãos: "Hoje estou muito otimista, porque acredito ter um modelo muito gracioso, tão gracioso que me surpreendo por ninguém ainda ter pensado nele até agora".
Beethoven, como artista e gênio que era, comovia-se com as belezas mais simples. "O que há de mais belo no mundo é um raio atravessando a copa de uma árvore", disse o criador da 9ª Sinfonia. E era na própria natureza que ele buscava inspiração para suas criações. "Beethoven costumava passear pelo campo antes de compor a fim de inspirar-se. O contato com a natureza estimulava sua inspiração porque via todos os seres como sinais do Criador e podia entender sua mensagem profunda e dialogar com eles", explica o catedrático da Universidade de Madri Alfonso López Quintás.
A beleza dilata a alma, é verdade, e pode fazê-la descobrir realidades imateriais no mundo material. O livro Jornadas Espirituais (Editora Quadrante), obra que reúne depoimentos de pessoas convertidas ao catolicismo, traz diversos exemplos desse fato. Cito apenas um: "Num dia de primavera, no último ano do colegial, tomei o trem para ir à Filadélfia a fim de fazer umas pesquisas escolares na biblioteca pública. No caminho de volta, passei pela Catedral de São Pedro e São Paulo; estava aberta e entrei... A igreja fora projetada com uma cúpula sobre o cruzamento das naves. A luz das janelas da cúpula incidia sobre o altar. Enquanto contemplava a beleza daqule lugar, soube que Deus estava ali. Nunca tinha percebido até então a presença de Deus" (Dale O´Leary).

Responsabilidade dos artistas
Conversando com um amigo que é artista plástico – e já com a idéia de escrever esse post – perguntei-lhe o que pretendia fomentar nas pessoas com as obras que produz. "Pretendo tocá-las de alguma forma, sensibilizá-las, mexer com elas. Se conseguir provocar alguma reação, já me darei por satisfeito", disse. E não há dúvidas de que provocará.
Os artistas plásticos, escritores, músicos e atores, de uma forma bem particular, são capazes de tocar o homem de maneira imediata, já que lidam diretamente com os sentidos – portas de entrada a todo e qualquer conhecimento – e com a sensibilidade. A importância dessas pessoas para a formação do homem é tão grande que o papa João Paulo II, em 1999, escreveu: "O artista vive numa relação peculiar com a beleza. Pode-se dizer, com profunda verdade, que a beleza é a vocação a que o Criador o chamou com o dom do talento artístico. (...) Quem tiver notado em si mesmo esta espécie de centelha divina que é a vocação artística, adverte ao mesmo tempo a obrigação de não desperdiçar este talento, mas de o desenvolver para colocá-lo ao serviço do próximo e de toda a humanidade. De fato, a sociedade tem necessidade de artistas (...) que garantam o crescimento da pessoa e o progresso da comunidade" (Carta aos Artistas, 1999).
Astor Piazzolla, Beethoven e outros artistas – e não digo apenas os reconhecidos pela História – já têm parte nesse progresso. Suas obras maravilhosas certamente degelaram muitas almas e dilataram outras tantas.


Ouça Adiós Nonino no site do UOL: http://musica.busca.uol.com.br/radio/index.php?busca=Adi%F3s+Nonino&param1=homebusca&check=musica&enviar=OK
(a primeira versão é a melhor entre as quatro que estão no site)

Saiba mais sobre Astor Piazzola
http://www.piazzolla.org/ (em inglês)
http://www.piazzolla.org/index-espanol.html (em espanhol)

21.5.06

A vida é uma festa


Era uma festa temática, anos 70. Na pista, luz estrobo, muitas calças boca-de-sino, cores fortes nas camisas, estampas, cabelos black power super densos. Na vitrola muito Abba, Alicia Bridges, Sister Sledge e Gloria Gaynor. Os convidados nem se importavam com o espaço restrito para tantos braços e pernas que se moviam em ritmo disco. A alegria era maior que qualquer aperto. Minha amiga, a anfitriã, fazia aniversário e, além disso, estava prestes a realizar um “mochilão” pela Europa dali alguns dias. Ela tinha um duplo motivo para comemorar, duas felicidades alcançadas: mais um ano vivido e a iminência de uma viagem que lhe daria ótimas experiências.
“A felicidade consiste em alcançar a plenitude, a qual encontra-se no fim, que é o primeiro que se deseja e o último que se consegue”. Esta definição de felicidade é do filósofo grego Aristóteles (Metafísica, 1021b 25), e parece deixar claro que a plenitude (ou felicidade) é conquistada não de imediato, mas ao longo de um processo, do cumprimento de algumas etapas, da construção de algo.
No caso da minha amiga é bem clara a etapa de 365 dias que ela completou desde seu último aniversário até àquele outro; o mochilão pela Europa também custou-lhe a vivência de algumas etapas: a primeira delas foi sonhar com a viagem, desejá-la; depois veio o planejamento para poupar dinheiro, estudar os melhores roteiros, os melhores hotéis, meios de transporte adequados e mais uma série de detalhes para, só depois, voar para a Europa.
Mas o tema deste post, embora pareça, não é sobre a felicidade em si – esse tema, aliás, dá pano para muitos posts – e sim sobre a celebração da felicidade. No livro Fundamentos de Antropologia – Um ideal da excelência humana (editado pelo Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio), o filósofo espanhol Ricardo Yepes Stork explica que o ser humano tem uma maneira muito prática de contemplar os bens que ama. “(...) O homem não contempla de uma maneira estática, como se ficasse paralizado pela beleza do ser amado. Ele celebra a plenitude”. Sendo ainda mais claro: o homem faz festa! “A felicidade tem caráter festivo”, reitera Stork.
Para os filósofos clássicos, esta celebração receberia o nome de ócio. Para nós, no entanto, o termo soa pejorativo, pois o entendemos como um “não fazer nada”. Para eles significava “um tempo dedicado aos prazeres da apreciação, à contemplação, ao uso da inteligência para saborear os bens mais altos (...)”.
Stork, em seu livro, usa o termo “ações lúdicas” para se referir às atitudes que celebram a felicidade, e atribui a essas ações quatro traços bem específicos:

1) As ações lúdicas têm um fim em si mesmas
Por exemplo, cantar, dançar e tocar música não servem para outra coisa senão para serem apreciadas em si mesmas. Não estão ordenadas a algo posterior, como o trabalho ou outra ação técnica estão. “As ações lúdicas expressam e provocam sentimentos que têm a ver com a felicidade, como a celebração da excelência”, diz Stork.

2) O tempo das ações lúdicas está separado do tempo normal
Estas ações têm lugar dentro de um contexto, como uma festa, um jogo ou algo que o valha. Fora desse contexto, a ação lúdica torna-se inadequada e até grotesca. “Ninguém vai assistir uma aula fantasiado”, exemplifica o filósofo espanhol.

3) O riso, a alegria, a piada e o cômico fazem parte das ações lúdicas
“A extraordinária e singular capacidade humana de levar as coisas na brincadeira é exercitada quando ingressamos, de algum modo, na região do lúdico, na qual somos felizes por haver alcançado o fim e a plenitude, ainda que apenas relativamente. Por isso rimos e nos divertimos”.

4) Uma palavra resume as ações lúdicas: brincar
Uma simples partida de um jogo é uma “felicidade provisória, uma ocupação felicitária”, afirma o filósofo também espanhol Julián Marías, falecido no ano passado. Mesmo as “felicidades pequenas”, como cantar uma música, jogar uma partida de tênis ou ir ao teatro, têm seu mérito para a vida humana.

Se as grandes plenitudes da vida – um aniversário, a entrada na universidade, um nascimento, a recuperação da saúde após uma grave doença – são dignas de festas e celebrações marcantes, acontecimentos dos mais rotineiros também despertam na alma humana desejos de comemorar. A pausa para um café com os colegas após um dia inteiro de trabalho, o encontro com um amigo para espraiar as idéias e recuperar o ânimo, um filme no vídeo para fechar o sábado com leveza... tudo isso é, em maior ou menor grau, contemplar os bens que amamos. Se é ócio para os clássicos ou celebração para os contemporâneos, não muda a essência do que foi dito até agora. O fato é que ambos estão de acordo que a vida humana está para ser comemorada.

19.5.06

Usar filosofia? Pra quê? Como?


Pois é. Foi o que me perguntei também quando decidi criar este blog para falar de filosofia na prática. Imagino que na cabeça de muita gente a palavra filosofia apareça com cores sisudas, traços complexos e uma grafia tão barroca que quase impede a leitura do vocábulo FI-LO-SO-FI-A. Mas acredito que essa aversão quase instintiva não se deva à filosofia em si – que é muito atraente – mas à maneira como ela tantas vezes é ensinada nos colégios, cursinhos e faculdades – uma maneira chata e hermética.
Falar de filosofia na prática soa contraditório, já que filosofar parece um esporte para cabeças viajantes e pouco objetivas. Mas não é bem assim. E foi justamente por ter essa convicção que arranjei fôlego – espero que ele vá longe – para escrever sobre o assunto.
Em primeiro lugar, é bom que saibam que eu não sou filósofa nem professora. O fato é que desde o colegial desenvolvi verdadeira paixão pelo tema e, durante a faculdade de jornalismo, tive a sorte grande de estudar dois anos sobre filosofia num curso extra-graduação com professores excelentes. A cada um deles serei sempre muito grata.
Em segundo lugar, vamos direto ao assunto: é possível, sim, “usar” filosofia no dia-a-dia. Aprendi isso no curso, sem dúvida, mas também no calor dos dias e das horas, em casa, no trabalho, na rotina. Não é difícil perceber quanta sabedoria existe nas palavras e atitudes de algumas pessoas que costumamos tomar como referências: os pais, um amigo mais experiente, uma pessoa mais velha, um professor. Muitas vezes a clareza de pensamento, a coerência e a sensatez dessas pessoas são tão patentes que até os enxergamos como autênticos filósofos. E é mesmo nessas pessoas que os filósofos tantas vezes se basearam – e se baseiam – para tecer suas teorias. Eles extraem da realidade mais comezinha esses lampejos de bom senso e sabedoria que encontram nas pessoas; depois mergulham nesses lampejos, vasculham, chafurdam, pensam e repensam sobre eles, questionam, os desconstroem e depois os remontam agregando-lhes um componente: a teoria. Os filósofos, grosso modo, nos explicam o que o porquê daquilo que somos e fazemos.
Quantos de nós, ao ler um texto sobre filosofia, já não exprimiu (ainda que interiormente) a seguinte frase: “nossa, mas é isso mesmo que acontece, é assim mesmo que eu funciono, é dessa maneira que eu reajo!”. E a nossa cara de espanto permanece por uns dois ou três minutos, o livro aberto entre as mãos, uma sensação de clareza de idéias, de resposta súbita e exata, os olhos mirando o nada, estatelados, como se estivessem avistando uma nova América. Pois é: isso é a perspicácia dos filósofos que nos descobrem e muitas vezes nos deixam nus diante de nós mesmos.
Ok. Se os filósofos dão a teoria para a nossa prática, não é mais vantajoso nos determos na prática que já conhecemos e evitar perder tempo com teorias? Talvez seria, sim, se nós entendêssemos sempre e tudo o que fazemos. Mas o fato é que nem sempre entendemos.
Vou apelar para o momento “quantos de nós” novamente – desculpem, mas às vezes me repito. Quantos de nós, ao falar ou fazer alguma coisa (boa ou não tão boa) já não exprimiu a seguinte frase: “meu Deus, como fiz isso? Eu não imaginava que poderia fazer isso!”. E, de novo, os olhos estatelados, perdidos no nada, e a cabeça tentando entender o porquê das ações ou palavras.
O fato de nem sempre termos uma consciência plena daquilo que fazemos e somos nos torna menos livres para melhorar o que já existe de bom em nós e na realidade que nos cerca e para corrigir o que há de ruim. Em suma, ficamos limitados à nossa ignorância.
Basta pensar numa criança que nasceu com talento para a música, mas que nunca foi estimulada a desenvolvê-lo. Talvez ela chegue à velhice sem saber que poderia ter sido uma virtuose. Pensemos também no caso de um mecânico que se proponha a consertar um carro sem procurar saber antes onde está o defeito. Qual ferramenta ele usará primeiro? Talvez perca o dia pensando por onde começar.
E aqui chegamos, finalmente, ao porquê do blog. A idéia é usar esse espaço para desaguar as idéias, dúvidas e respostas, destrinchar conceitos, aparar arestas, deixar o pensamento tomar uma brisa. E isso tudo de maneira simples, direta, dando espaço às certezas e às retificações, usando situações comuns e concretas do dia-a-dia para dar corpo e forma às idéias discutidas. O fim último desse blog é ajudar a entender um pouco melhor o que e o porquê daquilo que somos, pensamos, fazemos, ouvimos e vemos.
E para que isso? Simplesmente para descobrirmos como ser tão bons quanto podemos e como evitar, tanto quanto possível, aquilo que nos tira a liberdade.