Para grandes tarefas, almas magnas

O trabalho de repórter me dá uma oportunidade que considero excepcional: conhecer pessoas, muitas pessoas, com as mais distintas personalidades, idéias e histórias. Basta que eu me sente diante delas, ligue o gravador e dispare a primeira pergunta. O que se segue depois disso não é bem um diálogo – já que nas entrevistas o repórter ouve muito e fala pouco –, e sim um “desaguar” de histórias que vou represando para, em seguida, garimpar os fatos mais relevantes que existem nelas.
Numa dessas entrevistas fiquei diante de dois homens de negócios, e ambos me proporcionaram um garimpo interessante. Um deles me disse que durante toda sua carreira profissional, fosse trabalhando em cargos subalternos ou como diretor de empresa, procurava sempre fazer o melhor e ir além daquilo que seu ofício lhe exigia. Já o outro entrevistado, que durante a juventude passou por dificuldades de toda ordem, afirmou que o fato de ter pautado sua conduta no exemplo de pessoas virtuosas o ajudou a não nivelar seus objetivos por baixo, mesmo quando as circunstâncias a isso o impeliam.
Os assuntos, a princípio, parecem não sugerir uma abordagem filosófica, mas ela existe. Na base das duas condutas descritas, ainda que de forma implícita, está a idéia de que a vida humana é uma tarefa que precisa ser cumprida e, ao fazê-lo, o homem pode alcançar a felicidade.
“A vida tem sentido quando temos uma tarefa a cumprir nela. Isso é o que introduz estabilidade, fantasia e, portanto, uma certa felicidade a cada dia que começa”, explica o filósofo Ricardo Yepes Stork, que completa o pensamento dizendo que o sentido da vida não é a felicidade em si, mas condição para ela.
Tarefas e tarefas
Não é qualquer tarefa, entretanto, que é capaz de descortinar o sentido da vida. Existem, sim, tarefas de maior ou menor repercussão, complexidade, longevidade e importância social, mas independentemente do grau que atinjam nesses quesitos, só serão capazes de conduzir o homem à felicidade as tarefas que possuem beneficiários, pessoas a quem possam ser entregues. “Se não existe um beneficiário, alguém a quem dar, a tarefa não pode ser solidária e, no final, acaba aborrecida e sem sentido. A plenitude da tarefa é que seu fruto repercuta em outros, que meu esforço se perpetue em forma de dom e benefício para os demais”, assegura Stork.
A razão que explica essa peculiaridade das tarefas humanas é que o homem, como pessoa é, essencialmente, um ser dialógico, ou seja, capaz de dialogar com seu interlocutor, de relacionar-se, de entregar-se. E ele necessita disso. A vida em sociedade é a prova mais cabal dessa realidade. Portanto, fechar-se em si e não ter outras miras que não o próprio interesse é, antropologicamente falando, uma afronta à própria natureza humana.
Almas grandes, tarefas grandes
Uma das características mais atraentes em uma pessoa é a magnanimidade – a alma grande, acolhedora, generosa e correta e até – para usar um termo empresarial moderno – empreendedora. Melhor até do que citar os atributos de alguém magnânimo é apresentar a virtude personificada: Cristo, o judeu mais famoso de todos os tempos era, sim, magnânimo, e os registros históricos que descrevem sua conduta não deixam dúvidas sobre isso. Ele sentava-se à mesa com prostitutas, ricos, pobres, doentes, poderosos, políticos, soldados e toda classe de gente que não distinguia entre melhores ou piores; era severo com o erro, mas não com o autor dele; à pessoa justa e honesta fazia questão de louvar em público; às antigas leis judaicas, que muitas vezes pregavam o castigo e a vingança como pena, procurou refutá-las e substituí-las pela lei do perdão incondicional; trabalhou pelo bem comum e instruiu aos que o seguiam a trabalharem com o mesmo ideal; e aqui poderíamos citar mais um sem fim de ações que evidenciam a amplitude da sua alma.
E é de pessoas assim, magnânimas, que costumam brotar as tarefas e projetos mais promissores. Promissores segundo o bem alheio que promovem e, em conseqüência disso, segundo o nível de felicidade que são capazes de proporcionar a quem empreende a tarefa.
“Um bom projeto vital e uma vida bem enfocada são aqueles articulados a partir de convicções que conformam a conduta em longo prazo, com vistas ao fim que se pretende, e que orientam a duração da vida, dando-lhe sentido. As convicções contêm as verdades inspiradoras de meu projeto vital” (Stork). É correto dizer, portanto, que a pessoa magnânima, entre outros atributos, tem convicções e as utiliza para guiar suas ações. Se a afirmação contrária fosse possível, não existiria real magnanimidade, mas apenas um simulacro dessa virtude.
Mediocridade, anemia das convicções
"De fato, não existe nada mais deplorável do que, por exemplo, ser rico, de boa família, de boa aparência, de instrução regular, não tolo, até bom, e ao mesmo tempo não ter nenhum talento, nenhuma peculiaridade, inclusive nenhuma esquisitice, nenhuma idéia própria, ser terminantemente "como todo mundo". Tem riqueza, mas não do tipo Rothschild; a família é honesta, mas nunca se distinguiu por nada; aparência boa, mas muito pouco expressiva; boa instrução, mas não sabe em que empregá-la; tem inteligência, mas sem idéias próprias; tem coração, mas sem magnanimidade etc. etc. em todos os sentidos".
Extraí este parágrafo do romance O Idiota, do escritor russo Fiódor Dostoiévski, por considerar que, em poucas linhas, ele conseguiu destrinchar os efeitos da mediocridade, que é, da magnanimidade, a antípoda.
Creio que nem sejam necessárias muitas considerações sobre a incapacidade de a alma medíocre – enquanto permanece nesse estado de anemia das convicções – empreender tarefas de peso. Mas, sim, é necessário considerar que esse estado de apatia vital é reversível, desde que se questione e descubra o porquê de sua existência e se trabalhe para mudá-lo. “Cada pessoa faz sua própria vida de um modo biográfico, e por isso tem tanta importância a pretensão vital de cada um, aquilo que cada um pede da vida e procura alcançar por todos os meios. O problema é que muitas vezes não se consegue isso porque (...) aspiramos a menos do que nos é devido (...)”, indica Stork.
Tarefas grandes dos dias pequenos
Quando falei de almas magnânimas, seus atributos e suas tarefas grandiosas, tenho certeza que a memória de alguns leitores recuperou nomes de pessoas que incorporam ou incorporaram essa virtude: Gandhi, Madre Teresa de Calcutá e outros tantos que a História já se encarregou de destacar como modelos.
De fato, eles o são. Mas não só eles, e não só empreendimentos como os deles podem ser considerados promissores no sentido mais profundo que estamos dando a esta palavra até agora. Não sei até que ponto os meus entrevistados tinham consciência disso quando decidiram atuar com atuaram – trabalhar bem, ir além do que foi estipulado nas tarefas e inspirar-se em modelos de virtudes, como descrevi no início desse post. Mas o fato é que suas ações, por simples que tenham sido, denotam, senão a magnanimidade – não os conheci a fundo para afirmar isso – pelo menos uma disposição para ela.
Tarefas grandes têm lugar nos dias pequenos, mesmo naqueles mais ordinários, que não achariam espaço nem na última página do último livro de História. Apenas o fato de encarar as atividades do dia-a-dia – trabalhar, estudar, cuidar dos filhos, estar com os amigos – como circunstâncias próprias para se prestar um serviço aos demais já confere às tarefas o caráter solidário e cheio de sentido ao qual o filósofo Ricardo Stork se refere. Quanto mais embebida em serviço e “alteridade” estiver uma tarefa, tanto maior a felicidade que poderá render e tanto mais magna a alma de quem a empreende.
* A imagem colocada nesse post é um detalhe do afresco "Alegoria do bom governo", de Ambrogio Lorenzetti (séc. XIV). A figura à esquerda é a representação da virtude da magnanimidade; no centro, a temperança; à direita está a virtude da justiça. O artista mostra que as três virtudes, além de outras que não aparecem nesse detalhe, são necessárias para o bom desempenho do governo.

2 Comments:
At 8:27 AM,
Gerson Tung said…
O Equilibrio das Virtudes
O que pode a virtude de um homem não deve medir-se nos momentos de esforço, mas na vida de todos os dias.
Não admiro o excesso de uma virtude, como a coragem, se não vir ao mesmo tempo o excesso da virtude oposta, como em Epaminondas, que tinha a extrema coragem e a extrema benignidade. Pois de outro modo não é subir, é cair. A grandeza não consiste em estar num extremo, mas em tocar os dois ao mesmo tempo e em preencher todo o espaço intermédio. Mas talvez ela seja apenas um súbito movimento de alma de um extremo ao outro, talvez nunca esteja em mais que um ponto, como o tição de fogo? Seja; mas pelo menos isso indica a agilidade da alma, se não a sua extensão.
Blaise Pascal, em 'Pensamentos'
At 1:41 PM,
Françoise said…
oi, Sabrina
Entrar, nem que seja rapidamente e superficialmente, na vida de outrém realmente é o que mais me fascina no jornalismo. Estar um dia ao lado de um rico e poderoso empresário e no dia seguinte ouvir e enxergar a vida pelos olhos de um servente é algo que torna a profissão interessante e também nos faça pensar mais sobre o mundo, as dificuldades e as injustiças.
Vc descrevendo os dois empresários e dizendo que devemos nos pautar pelos valores e tarefas que ajudem a terceiros me faz pensar um pouco em como boa parte do mundo atual está longe disso. Enquanto muitas empresas pregam a responsabilidade social, por exemplo, a TV e muitas revistas mostram que o importante na vida é ser belo, rico, ter o carro do ano, jantar naquele restaurante e só usar aquela roupa. Daí vc pega aquele artista do qual o povão é fã e vê quais os valores equivocados que esta pessoa tem pra passar.
Olha, observando assim no geral eu diria que vamos mal, muito mal. Mas ainda bem que há poucos como vc e estes empresários que seguem seus valores à risca, não é?
beijim minha filósofa!
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