Filosofia para usar

Mais prática para quem não se contenta só com a teoria

21.5.06

A vida é uma festa


Era uma festa temática, anos 70. Na pista, luz estrobo, muitas calças boca-de-sino, cores fortes nas camisas, estampas, cabelos black power super densos. Na vitrola muito Abba, Alicia Bridges, Sister Sledge e Gloria Gaynor. Os convidados nem se importavam com o espaço restrito para tantos braços e pernas que se moviam em ritmo disco. A alegria era maior que qualquer aperto. Minha amiga, a anfitriã, fazia aniversário e, além disso, estava prestes a realizar um “mochilão” pela Europa dali alguns dias. Ela tinha um duplo motivo para comemorar, duas felicidades alcançadas: mais um ano vivido e a iminência de uma viagem que lhe daria ótimas experiências.
“A felicidade consiste em alcançar a plenitude, a qual encontra-se no fim, que é o primeiro que se deseja e o último que se consegue”. Esta definição de felicidade é do filósofo grego Aristóteles (Metafísica, 1021b 25), e parece deixar claro que a plenitude (ou felicidade) é conquistada não de imediato, mas ao longo de um processo, do cumprimento de algumas etapas, da construção de algo.
No caso da minha amiga é bem clara a etapa de 365 dias que ela completou desde seu último aniversário até àquele outro; o mochilão pela Europa também custou-lhe a vivência de algumas etapas: a primeira delas foi sonhar com a viagem, desejá-la; depois veio o planejamento para poupar dinheiro, estudar os melhores roteiros, os melhores hotéis, meios de transporte adequados e mais uma série de detalhes para, só depois, voar para a Europa.
Mas o tema deste post, embora pareça, não é sobre a felicidade em si – esse tema, aliás, dá pano para muitos posts – e sim sobre a celebração da felicidade. No livro Fundamentos de Antropologia – Um ideal da excelência humana (editado pelo Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio), o filósofo espanhol Ricardo Yepes Stork explica que o ser humano tem uma maneira muito prática de contemplar os bens que ama. “(...) O homem não contempla de uma maneira estática, como se ficasse paralizado pela beleza do ser amado. Ele celebra a plenitude”. Sendo ainda mais claro: o homem faz festa! “A felicidade tem caráter festivo”, reitera Stork.
Para os filósofos clássicos, esta celebração receberia o nome de ócio. Para nós, no entanto, o termo soa pejorativo, pois o entendemos como um “não fazer nada”. Para eles significava “um tempo dedicado aos prazeres da apreciação, à contemplação, ao uso da inteligência para saborear os bens mais altos (...)”.
Stork, em seu livro, usa o termo “ações lúdicas” para se referir às atitudes que celebram a felicidade, e atribui a essas ações quatro traços bem específicos:

1) As ações lúdicas têm um fim em si mesmas
Por exemplo, cantar, dançar e tocar música não servem para outra coisa senão para serem apreciadas em si mesmas. Não estão ordenadas a algo posterior, como o trabalho ou outra ação técnica estão. “As ações lúdicas expressam e provocam sentimentos que têm a ver com a felicidade, como a celebração da excelência”, diz Stork.

2) O tempo das ações lúdicas está separado do tempo normal
Estas ações têm lugar dentro de um contexto, como uma festa, um jogo ou algo que o valha. Fora desse contexto, a ação lúdica torna-se inadequada e até grotesca. “Ninguém vai assistir uma aula fantasiado”, exemplifica o filósofo espanhol.

3) O riso, a alegria, a piada e o cômico fazem parte das ações lúdicas
“A extraordinária e singular capacidade humana de levar as coisas na brincadeira é exercitada quando ingressamos, de algum modo, na região do lúdico, na qual somos felizes por haver alcançado o fim e a plenitude, ainda que apenas relativamente. Por isso rimos e nos divertimos”.

4) Uma palavra resume as ações lúdicas: brincar
Uma simples partida de um jogo é uma “felicidade provisória, uma ocupação felicitária”, afirma o filósofo também espanhol Julián Marías, falecido no ano passado. Mesmo as “felicidades pequenas”, como cantar uma música, jogar uma partida de tênis ou ir ao teatro, têm seu mérito para a vida humana.

Se as grandes plenitudes da vida – um aniversário, a entrada na universidade, um nascimento, a recuperação da saúde após uma grave doença – são dignas de festas e celebrações marcantes, acontecimentos dos mais rotineiros também despertam na alma humana desejos de comemorar. A pausa para um café com os colegas após um dia inteiro de trabalho, o encontro com um amigo para espraiar as idéias e recuperar o ânimo, um filme no vídeo para fechar o sábado com leveza... tudo isso é, em maior ou menor grau, contemplar os bens que amamos. Se é ócio para os clássicos ou celebração para os contemporâneos, não muda a essência do que foi dito até agora. O fato é que ambos estão de acordo que a vida humana está para ser comemorada.

1 Comments:

  • At 5:56 PM, Anonymous Brota said…

    gosto muito desta idéia. conscientemente lúdica em si mesma.
    vibrante!!!

    excesso de luz no recorte das ricas horas.

    arrasa brota!
    (vim te visitar...hehehe)

     

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