Dor, húmus da alma humana

Este post é para cada um dos meus amigos e amigas, colegas e conhecidos que têm ou tiveram dores a desaguar, das menores às maiores. Represei algumas das que conheço e agora as devolvo transfiguradas – indolores – por uma visão antropológica, no mínimo, esperançosa: a dor é o húmus que fortalece o homem e o faz maior e melhor do que ele imagina ser capaz.
O mérito dessa transfiguração não é meu, mas dos filósofos, antropólogos e pessoas sábias que pensaram sobre o assunto, sofreram e voltaram – provavelmente daquele poço profundo de que tanto se fala – trazendo nas mãos um luzeiro.
O sofrimento é algo próprio do ser humano, cuja psicologia tende a sentir-se atraída por aquilo que é bom – como o prazer e a esperança – e a assustar-se ou incomodar-se com o que é contrário ao seu bem-estar, como uma doença já instalada, uma rejeição ou mesmo a possibilidade futura de perder algo que lhe é caro.
“Quando o sério se torna interminável e parece talvez definitivo, sobrevem o sofrimento e desaparece a alegria: tudo parece, então, destinado a fracassar, e o mal, o pranto, a doença e o cansaço desdobram suas sombrias asas sobre nós. É uma região inevitável. Ignorá-la é manter-se no sonho. O homem, não há engano possível, é constitutivamente limitado, e assim o experimenta de múltiplos modos. A dor, em todos, é algo que já aconteceu, que está por aparecer, mas que sempre sairá ao nosso encontro (pelo menos no limite da própria morte)”, explica o filósofo espanhol Ricardo Yepes Stork no livro Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana (Ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio).
Não pretendo aqui esmiuçar os porquês últimos do sofrimento, mas apenas tentar enxergar o que há de “bom” em situações, via de regra, desagradáveis. Apesar de existirem respostas sólidas para muitos desses porquês últimos, oferecidas tanto pela filosofia quanto pela religião, é provável que a resposta mais convincente será encontrada no interior de cada pessoa que padece ou padeceu algum desgosto.
Com o passar do tempo e com a assimilação da dor, um panorama de compreensão se descortina na vida de quem sofre. As dores padecidas – cicatrizadas ou ainda lancinantes – passam a fazer sentido dentro de histórias pessoais, com nome, sobrenome e um contexto próprio, irrepetível. É como juntar as peças de um quebra-cabeça. Uma dor se encaixa em outra, e em outra, e em outra. Entre elas, encaixam-se cenas da vida aparentemente vulgares que, quando ladeadas pelas cenas ásperas do sofrimento, ganham um sentido mais claro, mais profundo, talvez. A imagem do quebra-cabeças, então, começa a se formar, e aqueles sofrimentos, que isolados pareciam completamente absurdos, unidos em um quebra-cabeça fazem um sentido incrível, enunciam respostas e dão a conhecer o título da história de vida de quem ousou se debruçar sobre as próprias dores e perscrutar-lhes o sentido. Quando encaixada a última peça, gostando ou não da imagem formada, muitos dos que padecem chegarão a dizer: precisei sentir essas dores para entender e aceitar aspectos fundamentais da minha vida e que, nos momentos de gozo, eu era incapaz de abarcar.
Fugir da “fuga”
Uma coisa é certa, e a experiência assim nos mostra: fugir à dor só causa mais dor. A fuga – que pode se dar com o torpor da razão por qualquer química (drogas, álcool ou remédios) ou pela postura de não querer entender o que se passa – nos “incapacita para suportar o padecer, e aumenta com isso o sofrimento”, explica o filósofo alemão Robert Spaemann. Quanto aos remédios, cabe uma ressalva: eles servem ao homem como muletas necessárias, mas provisórias – como no caso de uma depressão, por exemplo. Se as muletas não são usadas (ou abandonadas) no momento oportuno, atravancam o fortalecimento do homem e seu caminhar normal.
O paradoxo da fuga da dor que gera mais dor consiste em que, ao desviarmos dela, a encontramos justamente onde não a esperamos: “na nossa própria fragilidade e insatisfação ante as dificuldades ordinárias da vida, que se tornam insuportáveis em nossa falta de motivos para sofrer, inermes diante da dor” (Stork). A fuga sistemática de qualquer sofrimento nos faz menos aptos mesmo às pequenas batalhas do dia-a-dia – um atraso do ônibus ou uma simples gripe podem ser motivos para grandes dramas. O que dizer, então, dos sofrimentos “existenciais”, relacionados aos fins últimos do homem? É certo que os grandes combates se perdem, muitas vezes, pela falta de treino nas pequenas batalhas.
Dor moral e dor física
“A dor do corpo é pessoal, mas infinitamente menos íntima do que a dor moral. Uma perna quebrada não tem o mesmo nível de sofrimento que uma depressão profunda, já que a primeira afeta de um modo muito mais remediável e parcial (se engessa e se toma um calmante e está resolvido), enquanto que a segunda pode tirar de foco completamente a explicação do sentido da vida. Este sofrimento causa mais dano também por ser menos comunicável: todos vêem o inchaço da perna, mas não é fácil perceber a dor do espírito”, descreve Stork.
No caso das dores morais, por incrível que pareça – e quem já não terá vivido isso? – o homem é capaz de aumentá-las. Nos sofrimentos interiores, a memória, a fantasia e a inteligência intervêm de modo inconfundível: são utilizadas pelo homem para relembrar sofrimentos passados, para imaginar grandes males que podem surgir e para “carregar nas tintas” do sofrimento presente. “Essa é a raiz da hipocondria, da apreensão, das fobias etc.”, alerta Stork.
Aproveitar bem a dor
O que segue nesse post não é uma apologia à dor, ao masoquismo ou algo que o valha. Aproveitar bem a dor não significa fomentá-la, mas sim, em primeiro lugar, deixar de medir forças com aquelas que são inevitáveis. Em segundo lugar, significa ancorar-se na
intensidade dos sofrimentos e usá-la para purificar a alma, fortalecer sua “musculatura” e aprender a dar a cada coisa o valor que tem.
1) Aceitar o sofrimento: “quando padecemos de uma doença, do cativeiro, de um ultraje ou de uma desgraça, não somos livres de sofrê-los ou não, visto que vêm impostos, mas podemos, sim, adotar diante deles uma atitude positiva ou negativa, de aceitação ou rejeição” (Yepes). Ao assumir a dor como uma tarefa de reorganização da própria vida, o homem se empenha em procurar os meios para colocar um fim ou amenizar o que lhe tira a paz; com essa postura ativa, deixa de estar tão submisso aos males que vêm de fora. Seu domínio sobre o sofrimento pode não ser total, dadas as suas limitações, mas certamente não será nulo, e ele não estará inerte sob o jugo que lhe cabe naquela circunstância adversa. “O verdadeiro resultado do sofrimento é um processo de amadurecimento. O amadurecimento se baseia em que o ser humano alcance a liberdade interior, apesar da dependência exterior”, afirmou o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas.
2) Purificar-se com a dor e colocar cada coisa em seu lugar: o sofrimento, quando assumido livremente, nos torna menos dependentes dos nossos caprichos, uma vez que
aprendemos a renunciar àquilo que não podemos ter – justamente o que nos causa dor –, seja a saúde, um bem material necessário, o apoio de alguém, um amor não correspondido. Diante de uma depressão profunda, por exemplo, o ser humano se vê acometido por uma falta de vontade estrutural para as coisas mais simples do dia-a-dia; enfronha-se no desespero, no não-entendimento sobre o que se passa; embebe a alma na revolta. Passado, digamos, o “tempo de prova”, curada a depressão, o peso dos problemas, para quem sofreu com essa doença, passa a ser muito relativo. A falta de dinheiro, uma rusga no trabalho ou na família, uma decepção ou um mal-estar físico duradouro apresentam-se com uma dimensão muito menor do que tinham antes da depressão. A sensação que se tem após uma depressão ou outro sofrimento igualmente "paralizante" é de que o pior já passou. As dores ficam mais amenas, as soluções mais aparentes; até as dores alheias são melhor acolhidas por esta pessoa, pois ela está muito mais “treinada” para perceber de longe quando algo não vai bem numa alma do que alguém que nunca apalpou as próprias limitações. “As pessoas que sofreram estão vacinadas contra a insensatez, e nota-se, em seu semblante sereno e mais dificilmente alterável, uma certa postura interior e capacidade de agüentar que as torna mais donas de si” (Stork).
Após um sofrimento intenso, a alma humana pode aniquilar-se, tornar-se permanentemente amarga e pessimista. Isso, é claro, se consumir tempo e energia lamentando-se pelo que poderia ter sido e não foi. Mas quando a postura é de aceitação ativa – reorganizar a vida a partir de uma circunstância adversa – e de purificação – aprender a renunciar ao que não pode ter e criar situações que supram as privações –, a alma se agiganta. Sem saber ao certo de onde tira as forças que o fazem continuar firme num caminho tortuoso, o homem muitas vezes se surpreende com as capacidades “regenerativas” que possui. Não é raro ver pessoas que carregam na bagagem todas as condições objetivas para “darem errado na vida” – infortúnios, privações, desgraças – e que acabam “dando certo”. Isso porque a energia que gastam para transpor os obstáculos é tão grande, que acabam superando não só os obstáculos como também as limitações interiores – a falta de alguma virtude, por exemplo – que só a adversidade é capaz de revelar.
O grande segredo: dar um sentido para o sofrimento
O sofrimento só é livremente aceito pelo homem e encarado como ocasião de purificação e crescimento quando há um sentido último para isso. E esse sentido último é, ao fim e ao cabo, o sentido que damos à própria vida. “Quando um homem tem um porquê viver, suporta qualquer como”, escreveu Nietzsche. Para ficar mais claro, sugiro um exemplo até de pouca transcendência: uma pessoa cujo objetivo é ser promovida na empresa, estará disposta a certas privações que a farão chegar aonde quer. Trabalhará mais, se cansará mais; talvez dedique menos tempo ao lazer, mas aceitará tudo isso de bom grado, uma vez que essas privações serão etapas transitórias e, acima de tudo, a farão alcançar um objetivo.
O sofrimento, então, muda de figura, e passa a ser encarado como sacrifício, sacro facere, um ato sagrado, essencial. Exemplos de pessoas que assimilam o sofrimento como sacrifício não faltam na vida de ninguém: os pais que se desvelam pelos filhos; um marido que abre mão de gostos pessoais para agradar a esposa; um professor que se esmera nos estudos para enriquecer o pensamento dos alunos. É bem provável que, vez por outra, contemplemos nessas pessoas alguns traços de sofrimento. Mas o que salta mesmo aos olhos em almas “curtidas” pelas intempéries é sua grandeza e serenidade. Contemplando-as, não há como negar: a dor é mesmo o húmus que fortalece o homem e o faz maior e melhor do que ele imagina ser capaz.
“Todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê-los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilatação da vida”.
Trecho do romance Lições de Abismo, de Gustavo Corção
O mérito dessa transfiguração não é meu, mas dos filósofos, antropólogos e pessoas sábias que pensaram sobre o assunto, sofreram e voltaram – provavelmente daquele poço profundo de que tanto se fala – trazendo nas mãos um luzeiro.
O sofrimento é algo próprio do ser humano, cuja psicologia tende a sentir-se atraída por aquilo que é bom – como o prazer e a esperança – e a assustar-se ou incomodar-se com o que é contrário ao seu bem-estar, como uma doença já instalada, uma rejeição ou mesmo a possibilidade futura de perder algo que lhe é caro.
“Quando o sério se torna interminável e parece talvez definitivo, sobrevem o sofrimento e desaparece a alegria: tudo parece, então, destinado a fracassar, e o mal, o pranto, a doença e o cansaço desdobram suas sombrias asas sobre nós. É uma região inevitável. Ignorá-la é manter-se no sonho. O homem, não há engano possível, é constitutivamente limitado, e assim o experimenta de múltiplos modos. A dor, em todos, é algo que já aconteceu, que está por aparecer, mas que sempre sairá ao nosso encontro (pelo menos no limite da própria morte)”, explica o filósofo espanhol Ricardo Yepes Stork no livro Fundamentos de Antropologia – Um ideal de excelência humana (Ed. Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio).
Não pretendo aqui esmiuçar os porquês últimos do sofrimento, mas apenas tentar enxergar o que há de “bom” em situações, via de regra, desagradáveis. Apesar de existirem respostas sólidas para muitos desses porquês últimos, oferecidas tanto pela filosofia quanto pela religião, é provável que a resposta mais convincente será encontrada no interior de cada pessoa que padece ou padeceu algum desgosto.
Com o passar do tempo e com a assimilação da dor, um panorama de compreensão se descortina na vida de quem sofre. As dores padecidas – cicatrizadas ou ainda lancinantes – passam a fazer sentido dentro de histórias pessoais, com nome, sobrenome e um contexto próprio, irrepetível. É como juntar as peças de um quebra-cabeça. Uma dor se encaixa em outra, e em outra, e em outra. Entre elas, encaixam-se cenas da vida aparentemente vulgares que, quando ladeadas pelas cenas ásperas do sofrimento, ganham um sentido mais claro, mais profundo, talvez. A imagem do quebra-cabeças, então, começa a se formar, e aqueles sofrimentos, que isolados pareciam completamente absurdos, unidos em um quebra-cabeça fazem um sentido incrível, enunciam respostas e dão a conhecer o título da história de vida de quem ousou se debruçar sobre as próprias dores e perscrutar-lhes o sentido. Quando encaixada a última peça, gostando ou não da imagem formada, muitos dos que padecem chegarão a dizer: precisei sentir essas dores para entender e aceitar aspectos fundamentais da minha vida e que, nos momentos de gozo, eu era incapaz de abarcar.
Fugir da “fuga”
Uma coisa é certa, e a experiência assim nos mostra: fugir à dor só causa mais dor. A fuga – que pode se dar com o torpor da razão por qualquer química (drogas, álcool ou remédios) ou pela postura de não querer entender o que se passa – nos “incapacita para suportar o padecer, e aumenta com isso o sofrimento”, explica o filósofo alemão Robert Spaemann. Quanto aos remédios, cabe uma ressalva: eles servem ao homem como muletas necessárias, mas provisórias – como no caso de uma depressão, por exemplo. Se as muletas não são usadas (ou abandonadas) no momento oportuno, atravancam o fortalecimento do homem e seu caminhar normal.
O paradoxo da fuga da dor que gera mais dor consiste em que, ao desviarmos dela, a encontramos justamente onde não a esperamos: “na nossa própria fragilidade e insatisfação ante as dificuldades ordinárias da vida, que se tornam insuportáveis em nossa falta de motivos para sofrer, inermes diante da dor” (Stork). A fuga sistemática de qualquer sofrimento nos faz menos aptos mesmo às pequenas batalhas do dia-a-dia – um atraso do ônibus ou uma simples gripe podem ser motivos para grandes dramas. O que dizer, então, dos sofrimentos “existenciais”, relacionados aos fins últimos do homem? É certo que os grandes combates se perdem, muitas vezes, pela falta de treino nas pequenas batalhas.
Dor moral e dor física
“A dor do corpo é pessoal, mas infinitamente menos íntima do que a dor moral. Uma perna quebrada não tem o mesmo nível de sofrimento que uma depressão profunda, já que a primeira afeta de um modo muito mais remediável e parcial (se engessa e se toma um calmante e está resolvido), enquanto que a segunda pode tirar de foco completamente a explicação do sentido da vida. Este sofrimento causa mais dano também por ser menos comunicável: todos vêem o inchaço da perna, mas não é fácil perceber a dor do espírito”, descreve Stork.
No caso das dores morais, por incrível que pareça – e quem já não terá vivido isso? – o homem é capaz de aumentá-las. Nos sofrimentos interiores, a memória, a fantasia e a inteligência intervêm de modo inconfundível: são utilizadas pelo homem para relembrar sofrimentos passados, para imaginar grandes males que podem surgir e para “carregar nas tintas” do sofrimento presente. “Essa é a raiz da hipocondria, da apreensão, das fobias etc.”, alerta Stork.
Aproveitar bem a dor
O que segue nesse post não é uma apologia à dor, ao masoquismo ou algo que o valha. Aproveitar bem a dor não significa fomentá-la, mas sim, em primeiro lugar, deixar de medir forças com aquelas que são inevitáveis. Em segundo lugar, significa ancorar-se na
intensidade dos sofrimentos e usá-la para purificar a alma, fortalecer sua “musculatura” e aprender a dar a cada coisa o valor que tem.
1) Aceitar o sofrimento: “quando padecemos de uma doença, do cativeiro, de um ultraje ou de uma desgraça, não somos livres de sofrê-los ou não, visto que vêm impostos, mas podemos, sim, adotar diante deles uma atitude positiva ou negativa, de aceitação ou rejeição” (Yepes). Ao assumir a dor como uma tarefa de reorganização da própria vida, o homem se empenha em procurar os meios para colocar um fim ou amenizar o que lhe tira a paz; com essa postura ativa, deixa de estar tão submisso aos males que vêm de fora. Seu domínio sobre o sofrimento pode não ser total, dadas as suas limitações, mas certamente não será nulo, e ele não estará inerte sob o jugo que lhe cabe naquela circunstância adversa. “O verdadeiro resultado do sofrimento é um processo de amadurecimento. O amadurecimento se baseia em que o ser humano alcance a liberdade interior, apesar da dependência exterior”, afirmou o psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas.
2) Purificar-se com a dor e colocar cada coisa em seu lugar: o sofrimento, quando assumido livremente, nos torna menos dependentes dos nossos caprichos, uma vez que
aprendemos a renunciar àquilo que não podemos ter – justamente o que nos causa dor –, seja a saúde, um bem material necessário, o apoio de alguém, um amor não correspondido. Diante de uma depressão profunda, por exemplo, o ser humano se vê acometido por uma falta de vontade estrutural para as coisas mais simples do dia-a-dia; enfronha-se no desespero, no não-entendimento sobre o que se passa; embebe a alma na revolta. Passado, digamos, o “tempo de prova”, curada a depressão, o peso dos problemas, para quem sofreu com essa doença, passa a ser muito relativo. A falta de dinheiro, uma rusga no trabalho ou na família, uma decepção ou um mal-estar físico duradouro apresentam-se com uma dimensão muito menor do que tinham antes da depressão. A sensação que se tem após uma depressão ou outro sofrimento igualmente "paralizante" é de que o pior já passou. As dores ficam mais amenas, as soluções mais aparentes; até as dores alheias são melhor acolhidas por esta pessoa, pois ela está muito mais “treinada” para perceber de longe quando algo não vai bem numa alma do que alguém que nunca apalpou as próprias limitações. “As pessoas que sofreram estão vacinadas contra a insensatez, e nota-se, em seu semblante sereno e mais dificilmente alterável, uma certa postura interior e capacidade de agüentar que as torna mais donas de si” (Stork).
Após um sofrimento intenso, a alma humana pode aniquilar-se, tornar-se permanentemente amarga e pessimista. Isso, é claro, se consumir tempo e energia lamentando-se pelo que poderia ter sido e não foi. Mas quando a postura é de aceitação ativa – reorganizar a vida a partir de uma circunstância adversa – e de purificação – aprender a renunciar ao que não pode ter e criar situações que supram as privações –, a alma se agiganta. Sem saber ao certo de onde tira as forças que o fazem continuar firme num caminho tortuoso, o homem muitas vezes se surpreende com as capacidades “regenerativas” que possui. Não é raro ver pessoas que carregam na bagagem todas as condições objetivas para “darem errado na vida” – infortúnios, privações, desgraças – e que acabam “dando certo”. Isso porque a energia que gastam para transpor os obstáculos é tão grande, que acabam superando não só os obstáculos como também as limitações interiores – a falta de alguma virtude, por exemplo – que só a adversidade é capaz de revelar.
O grande segredo: dar um sentido para o sofrimento
O sofrimento só é livremente aceito pelo homem e encarado como ocasião de purificação e crescimento quando há um sentido último para isso. E esse sentido último é, ao fim e ao cabo, o sentido que damos à própria vida. “Quando um homem tem um porquê viver, suporta qualquer como”, escreveu Nietzsche. Para ficar mais claro, sugiro um exemplo até de pouca transcendência: uma pessoa cujo objetivo é ser promovida na empresa, estará disposta a certas privações que a farão chegar aonde quer. Trabalhará mais, se cansará mais; talvez dedique menos tempo ao lazer, mas aceitará tudo isso de bom grado, uma vez que essas privações serão etapas transitórias e, acima de tudo, a farão alcançar um objetivo.
O sofrimento, então, muda de figura, e passa a ser encarado como sacrifício, sacro facere, um ato sagrado, essencial. Exemplos de pessoas que assimilam o sofrimento como sacrifício não faltam na vida de ninguém: os pais que se desvelam pelos filhos; um marido que abre mão de gostos pessoais para agradar a esposa; um professor que se esmera nos estudos para enriquecer o pensamento dos alunos. É bem provável que, vez por outra, contemplemos nessas pessoas alguns traços de sofrimento. Mas o que salta mesmo aos olhos em almas “curtidas” pelas intempéries é sua grandeza e serenidade. Contemplando-as, não há como negar: a dor é mesmo o húmus que fortalece o homem e o faz maior e melhor do que ele imagina ser capaz.
“Todos nós sofremos na vida certos golpes psicológicos, um susto, uma surpresa maravilhada, uma descoberta dolorosa, que deixam em nós um resíduo. Ora, tudo em nossa vida vai depender da possibilidade de assimilação desses resíduos. Se conseguirmos dissolvê-los na substância de nossa pessoa, então esses sinais de nossas experiências serão fecundos. Haverá uma experiência propriamente humana, um lucro. Se eu transformar em sangue, em alma, as pedras de meu caminho, terei doravante antenas sensíveis que antes não possuía, serei capaz de intuições que antes me faltavam. Farei versos, descobrirei novos planetas, ou terei simplesmente um harmonioso equilíbrio que me permitirá a dilatação da vida”.
Trecho do romance Lições de Abismo, de Gustavo Corção

10 Comments:
At 7:00 AM,
Gerson Tung said…
"O hábito é o grande regulador da sensibilidade; ele determina a continuidade dos nossos atos, embota o prazer e a dor e nos familiariza com as fadigas e com os mais penosos esforços. O mineiro habitua-se tão bem à sua dura existência que dela se recorda saudoso quando a idade o obriga a abandoná-la e o condena a viver ao sol. O hábito, regulador da vida habitual, é também o verdadeiro sustentáculo da vida social. Pode-se compará-lo à inércia, que se opõe, em mecânica, às variações de movimento. A dificuldade para um povo consiste, primeiramente, em criar hábitos sociais, depois em não permanecer muito tempo neles. Quando o jugo dos hábitos pesou muito tempo num povo, ele só se liberta desse jugo por meio de revoluções violentas. O repouso na adaptação, que o hábito consiste, não se deve prolongar. Povos envelhecidos, civilizações adiantadas, indivíduos idosos tendem a sofrer demasiado o jugo do costume, isto é, do hábito."
Gustave Le Bon, em 'As Opiniões e as Crenças'
At 8:01 AM,
Angela Ferreira said…
É difícil não misturar dor e religião. Às vezes, penso que, pode ser muleta para os incrédulos ou conforto para os crentes, a religião conforta o coração do homem sofrido. Nestas horas de sofrimento, conforta-nos saber que foi por todo o sofrimento de Cristo que criamos consciência de seu infinito amor por nós. Ou então, para ser piegas: é da dor e sofrimento do parto que nascemos.
Penso que nós procuramos pela dor em muitos momentos de nossas vidas: os vícios, as manias e até mesmo, alguns hábitos e paixões, podem trazer-nos alguns males e sofrimento. Mas como negá-los, evitá-los?
O que dizer e como ajudar às pessoas desprovidas de recursos e saúde?
Como evitar que as diferenças - muitas vezes desintencional, como por exemplo, alguém ter casa, comida, emprego, roupa lavada e passada, enquanto outros dormem em ruas, debaixo de viadutos sem ter o que comer ou vestir - sejam fator de dor em quem as vive ou as presencia?
A dor é capaz de mudar a personalidade das pessoas, tanto´para o bem ou para o mal. Qual será o limite, a intensidade e a função da dor em nossas vidas?
Angela Ferreira
At 8:02 AM,
Angela Ferreira said…
É difícil não misturar dor e religião. Às vezes, penso que, pode ser muleta para os incrédulos ou conforto para os crentes, a religião conforta o coração do homem sofrido. Nestas horas de sofrimento, conforta-nos saber que foi por todo o sofrimento de Cristo que criamos consciência de seu infinito amor por nós. Ou então, para ser piegas: é da dor e sofrimento do parto que nascemos.
Penso que nós procuramos pela dor em muitos momentos de nossas vidas: os vícios, as manias e até mesmo, alguns hábitos e paixões, podem trazer-nos alguns males e sofrimento. Mas como negá-los, evitá-los?
O que dizer e como ajudar às pessoas desprovidas de recursos e saúde?
Como evitar que as diferenças - muitas vezes desintencional, como por exemplo, alguém ter casa, comida, emprego, roupa lavada e passada, enquanto outros dormem em ruas, debaixo de viadutos sem ter o que comer ou vestir - sejam fator de dor em quem as vive ou as presencia?
A dor é capaz de mudar a personalidade das pessoas, tanto´para o bem ou para o mal. Qual será o limite, a intensidade e a função da dor em nossas vidas?
Angela Ferreira
At 4:36 PM,
Anônimo said…
Sabrina,
É uma ousadia, quase uma heresia, falar em dor numa sociedade onde o que vale é a busca do prazer.
Angústias se curam com comprimidos e doses tomadas sem muita moderação. Carências se resolvem com pacotes sensoriais comprados com cartão de crédito. Fracassos profissionais são disfarçados com longas preleções sobre injustiças sociais.
A utopia está sempre a um passo de qualquer um. Como no ano mil a utopia se realizava dentro das igrejas e das catedrais, hoje se completa nos templos do consumo. A busca do eu? Eu, quem? De onde vim e para onde vou?
Ora... deixe disso! A cartilha dos comunicadores sociais do agora já resolveu isso tudo. Basta abrir umas cervejas e tudo se torna conversa de bar.
Parabéns por se preocupar. Parabéns por pensar e se angustiar, por ler, meditar e escrever esse blog. E assim dar o que pensar. Inclusive sobre a dor.
Roberto Araújo
At 12:05 AM,
fran said…
sentir dor - física ou psicológica - realmente é inevitável, mas esta história de aproveitar a dor para se reerguer só sendo um superman pra aguentar o tranco. gostei de suas colocações e acho que deve-se aceitar, tentar melhorar, evoluir, mas que é difícil é difícil. imagine numa situação pesada pra valer. Deus que me livre...
beijim,
At 12:09 AM,
Françoise said…
este tema combina bem com o dia de hoje. sabrina, vc devia sair às ruas neste domingo pra ajudar o brasileiro a se reerguer.
beijim,
At 11:17 PM,
Paula Bianca said…
Incrível! Era tudo o que eu precisava ler!
Sabrina, parabéns pelo texto e, de verdade, muito obrigada por escrever!
Grande abraço,
At 1:40 PM,
Anônimo said…
Áh Sabrina!....Como é difícil,dolorido renascer das cinzas......
At 4:21 PM,
Anônimo said…
olha seu texto foi tudo que eu presisava, caiu do céu no momento perfeito. Agradeço por ter escrito e compartinhado com outras pessoas
At 1:59 PM,
Sol said…
Este tema deveria estar nas escolas, matéria fundamental a ser aprendida em seus níveis e percepções... aqui muito bem colocadas ao meu sentir.
Cada ser em sua experiência única, sabe ler um pouco disto e traduzir ao melhor de seus dias e buscas pessoais.
Sugiro uma continuidade do tema, está linkado em meus favoritos.
Sol
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